É sabido que a criatividade do homem é incrível, mas para um assunto em especial é maior ainda, qual seja, para o eufemismo. Essa figura de estilo que se caracteriza pela suavização de uma expressão, se demonstra, na atualidade, não só uma qualidade política, como uma exigência social.
Os problemas parecem menores se utilizarmos palavras agradáveis, como é o caso de "Residencial Geriátrico". O indivíduo deve se sentir muito melhor em saber que internou seus pais nesse local do que se tivesse deixado em um asilo. Outra pérola é o "Centro de acolhida ao maior em situação de rua". Acho que neste caso há ganho de autoestima duplo, pois a pessoa deixa de estar em um albergue e deixa de ser mendigo.
Na política, então, o eufemismo é um escudo contra a caracterização de qualquer ato ilícito. "Recursos não contabilizados" deixam de ser sonegação de imposto e lavagem de dinheiro; "mau emprego de recursos públicos" deixa de ser incompetência e corrupção; "apropriação momentânea de verbas estatais" deixa de ser peculato e mau caratismo.
Em debates de presidenciáveis e afins ocorre a maior ironia do eufemismo. Se um candidato falar que o outro está mentido é uma desonra passível de direito de resposta, mas se falar que está faltando com a verdade, não há qualquer injúria. Meu Deus! As duas expressões são análogas. Não é porque você faltou com a verdade que deixou de ser um mentiroso sem vergonha.
O que vemos é que usando desta figura como muleta, podemos desvirtuar o sentido das palavras e moldá-las conforme nossas necessidades, o que vai frontalmente de encontro com o sentido do eufemismo. Pois o que era para ser uma amenização divertida de expressões pesadas, passou a ser um salvo conduto para a distorção da ética e dos princípios morais.
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